Autismo no Brasil: Neurobiologia, Diagnóstico e Desafios do TEA

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma realidade crescente no Brasil, com o último dado do censo apontando para 2.4 milhões de pessoas autistas. Esse número expressivo, com diagnósticos em crianças e adultos, levanta questões importantes: estamos presenciando um aumento real na incidência ou uma melhoria nos critérios diagnósticos e na conscientização?

Para desvendar esses e outros mistérios do autismo, o podcast “Doses de Atipicidade”, apresentado pela nutricionista Carla de Castro, recebeu um convidado de peso: o Dr. André Felipe, neuropediatra com mais de 15 anos de experiência e uma referência na área. O episódio mergulhou na complexa neurobiologia do autismo, nos desafios alimentares e na importância de uma abordagem holística.

Dr. André Felipe, formado pela Fiocruz e coordenador de neuropediatria do Hospital Santa Lúcia Norte, trouxe uma perspectiva aprofundada sobre o tema. Sua vasta experiência e a base sólida em pediatria são cruciais para o reconhecimento das neurodivergências e dos prejuízos do neurodesenvolvimento.

A Neurobiologia do Autismo: Desvendando o Cérebro Atípico

A compreensão da neurobiologia é fundamental para entender os comportamentos associados ao autismo. Dr. André Felipe explicou que o cérebro autista não se diferencia apenas na arquitetura, mas também no seu funcionamento. Alterações no número de neurônios, no volume cerebral e, principalmente, na poda neuronal, são aspectos-chave.

A poda neuronal, um processo natural de eliminação de conexões sinápticas menos eficientes, ocorre ao longo da vida, com um pico importante nos primeiros anos. No autismo, essa poda pode ser excessiva (overpruning) ou insuficiente (underpruning). Uma poda menor, por exemplo, resulta em mais células neuronais, mas nem sempre com funcionamento adequado.

Essa desorganização da poda neuronal impacta diretamente as conectividades cerebrais. O cérebro autista tende a operar com conexões mais próximas, em vez de estabelecer ligações distantes. Isso pode explicar características como o hiperfoco e os interesses restritos, que resultam de uma hiperestimulação de regiões cerebrais próximas.

O Papel da Micróglia e a Percepção Sensorial

A micróglia, célula responsável pela poda neuronal, desempenha um papel crucial. Em cérebros típicos, neurônios menos eficientes expressam sinais químicos que indicam a necessidade de serem “podados”. No autismo, essa expressão pode ser inadequada, levando a uma desorganização da poda.

Outro conceito importante é o Transtorno do Processamento Sensorial, que se manifesta como hipersensibilidade (oral, auditiva, olfativa, tátil). Dr. André Felipe ilustra isso com o tálamo, a “secretária do cérebro”, que, em pessoas autistas, pode desorganizar a distribuição de estímulos. Um toque na cabeça, por exemplo, pode ser interpretado como dor em vez de carinho, explicando a aversão ao toque em algumas crianças.

O Papel Surpreendente do Cerebelo no Autismo

Historicamente associado apenas à coordenação motora e equilíbrio, o cerebelo tem ganhado destaque nos estudos sobre autismo. Sua complexidade, com uma área funcional equivalente a uma quadra de tênis se desdobrada, revela funções muito mais amplas, especialmente na cognição afetiva.

O cerebelo comunica-se intensamente com o córtex cerebral, principalmente com a área frontal, responsável pelo filtro cerebral. Em crianças atípicas, uma dissimetria no cerebelo pode modular reações comportamentais, resultando em um “pavio mais curto”, maior intolerância à frustração, irritabilidade e, por vezes, agressividade ou autoagressão.

As células de Purkinje no cerebelo, que possuem um efeito inibitório cerebral, mostram redução na densidade em indivíduos autistas. Essa diminuição da eficácia inibitória leva a um aumento da excitabilidade neuronal, resultando em um cérebro hiperconectado, mas menos refinado na percepção.

Cerebelo e a Compreensão do Ambiente

Uma área específica do cerebelo (região 7A) é responsável por identificar o ambiente como um todo. Dr. André Felipe exemplifica: ver alguém com a cabeça apoiada na parede pode significar tristeza ou cansaço. Mas, ao observar o contexto (outras crianças escondidas), percebemos que é uma brincadeira de pique-esconde. Essa capacidade de contextualização é mediada pelo cerebelo e pode estar alterada no autismo.

Desafios Alimentares e Sensoriais no TEA

A seletividade alimentar é uma queixa comum entre pacientes neurodivergentes, embora não exclusiva. Ela se manifesta como preferência por texturas, cores, sabores ou tipos específicos de alimentos, muitas vezes industrializados, devido à sua previsibilidade. A neofobia, o medo de experimentar o novo, também é frequente.

Para a criança autista, o alimento seguro representa uma previsibilidade e segurança em meio ao caos sensorial. Mudar essa rotina pode gerar estresse e desregulação. É crucial que pais e profissionais entendam que não se trata de “birra”, mas de uma resposta neurobiológica.

A Importância da Nutrição e da Abordagem Multidisciplinar

A nutricionista Carla de Castro enfatiza a importância de investigar as queixas gastrintestinais em pacientes neurodivergentes. Constipação, gases e desconfortos intestinais são comuns e podem ser a causa subjacente de irritabilidade e alterações comportamentais, não apenas “do autismo”.

A abordagem nutricional, muitas vezes criticada por profissionais desinformados, é vital. A seletividade alimentar pode levar à baixa absorção de nutrientes, que, por sua vez, afeta o paladar (deficiência de zinco) ou o apetite (deficiência de B12). Alergias alimentares também são mais prevalentes e devem ser investigadas.

A terapia alimentar é um protocolo sério, não uma “brincadeira de comidinha”. Técnicas como o encadeamento de alimentos (introduzir novos alimentos com base em características semelhantes aos já aceitos) e o “prato do experimenta” (ofertar um alimento novo ao lado de um seguro) são fundamentais. O objetivo é a dessensibilização e a quebra da neofobia, sempre respeitando o ritmo da criança.

Compreendendo o Autismo: Definição e Fatores de Risco

O autismo é uma condição multifatorial, resultado da interação entre genética e ambiente. Embora não se possa afirmar que o número de autistas está aumentando, a melhoria nos critérios diagnósticos e a maior conscientização contribuem para mais diagnósticos.

Fatores de risco incluem a idade parental avançada (especialmente a paterna). Dr. André Felipe também compartilha uma observação clínica sobre a correlação entre histórias de tristeza materna durante a gestação (especialmente na 20ª semana) e o diagnóstico de autismo, embora ressalte a falta de evidências científicas robustas para essa ligação.

A relação entre autismo e questões imunológicas/inflamatórias, como alergias alimentares e atopia de pele, também é um campo de estudo ativo. É fundamental ir além da superficialidade e investigar comorbidades associadas para oferecer saúde e qualidade de vida.

Principais Conclusões

  • O autismo no Brasil apresenta uma alta prevalência, com 2.4 milhões de diagnósticos, impulsionados pela melhoria nos critérios e conscientização.
  • A neurobiologia do autismo envolve alterações na poda neuronal (overpruning/underpruning) e na função microglial, afetando a conectividade cerebral.
  • O cerebelo tem um papel crucial na cognição afetiva e na modulação comportamental, com disfunções que contribuem para intolerância à frustração e irritabilidade.
  • A hipersensibilidade sensorial e a disfunção do tálamo explicam aversões a estímulos como o toque e a seletividade alimentar.
  • Queixas gastrintestinais são comuns em neurodivergentes e podem ser a causa de alterações comportamentais, exigindo investigação e intervenção nutricional.
  • A terapia alimentar, com técnicas como encadeamento e o “prato do experimenta”, é essencial para abordar a seletividade e neofobia, respeitando a segurança da criança.

Conclusão

A conversa entre Carla de Castro e Dr. André Felipe no “Doses de Atipicidade” reforça a complexidade do autismo e a necessidade de uma abordagem integrada e baseada em evidências. Desmistificar conceitos, aprofundar o conhecimento sobre a neurobiologia e reconhecer a importância de cada área da saúde são passos cruciais para oferecer um suporte mais eficaz e humanizado às pessoas no espectro. A colaboração entre diferentes especialidades, como nutrição e neuropediatria, é a chave para promover a saúde e a qualidade de vida que todos merecem.

Este artigo é baseado no vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=uKywuVTv2J0

Nesta matéria:

Faça download do Ebook

receitas sem glúten e sem lácteos

Participe

Faça parte da comunidade do Doses de Atipicidade e receba em primeira mão, direto em seu whatsapp, todas as novidades do projeto.

Gostou? Participe!

Faça parte da comunidade do Doses de Atipicidade e receba em primeira mão, direto em seu whatsapp, todas as novidades do projeto.

Olá, meu nome é
Carla de Castro

Sou nutricionista especializada em Saúde Mental e Transtornos do Neurodesenvolvimento, e dedico minha trajetória a transformar o cuidado com famílias atípicas. Sou pioneira no Brasil na abordagem nutricional voltada ao autismo e criei o podcast Doses de Atipicidade para ampliar esse diálogo com empatia e ciência. À frente da Clínica Sallva, acolho cada história com escuta ativa e desenvolvo estratégias nutricionais personalizadas que promovem equilíbrio, autonomia e qualidade de vida.