Autismo, Hipermobilidade e Dor Crônica: Desvendando Conexões Essenciais
O universo da neurodiversidade é vasto e complexo, exigindo um olhar atento e multidisciplinar para compreender suas nuances. No podcast “Dose de Atipicidade”, a nutricionista Carla de Castro, especialista em transtornos do neurodesenvolvimento, trouxe à tona uma discussão crucial: a conexão entre autismo, hipermobilidade e dor crônica. Este tema, muitas vezes subdiagnosticado, é fundamental para a qualidade de vida de indivíduos neurodivergentes.
Em um episódio revelador, Carla recebeu a Dra. Kaliny Trevezani, médica pediatra e referência em hipermobilidade em Brasília. A Dra. Kaliny, que também é autista e mãe de autista, compartilhou sua vasta experiência e conhecimento, destacando como a hipermobilidade pode ser a chave para entender queixas persistentes em pacientes autistas, como dores, lesões, fadiga crônica e problemas gastrointestinais.
A conversa sublinhou a necessidade de ir além do diagnóstico de autismo, investigando comorbidades que podem impactar significativamente o bem-estar. A hipermobilidade, em particular a Síndrome de Ehlers-Danlos (SED), emerge como um fator relevante que exige atenção de profissionais e famílias.
Desvendando a Síndrome de Ehlers-Danlos e a Hipermobilidade
A Síndrome de Ehlers-Danlos (SED) é um conjunto de 14 síndromes que compartilham características como hipermobilidade articular, pele hiperelástica e fragilidade tecidual. A forma mais comum, e com maior associação ao autismo, é a Síndrome de Ehlers-Danlos tipo hipermóvel (SEDh). Esta condição, embora muitas vezes considerada rara, é mais prevalente do que se imagina.
O que é Ehlers-Danlos?
A SEDh é caracterizada pela frouxidão dos ligamentos e alterações na matriz intercelular, a “sopa” onde as células estão imersas. Embora as outras 13 síndromes de Ehlers-Danlos tenham mutações genéticas específicas que afetam a produção de colágeno, a causa exata da SEDh ainda está sob investigação, com estudos apontando para alterações inflamatórias e metabólicas.
Hipermobilidade: Uma Característica Comum, Não Rara
A Dra. Kaliny Trevezani enfatiza que a prevalência da hipermobilidade generalizada, transtorno do espectro de hipermobilidade e SEDh é de 1 para cada 500 pessoas, podendo ser ainda maior. Este número desmistifica a ideia de que seja uma condição rara, ressaltando a importância de seu reconhecimento e manejo. O subdiagnóstico é um desafio, pois “só diagnosticamos o que conhecemos”.
A Intrínseca Conexão entre Neurodiversidade e Hipermobilidade
A associação entre transtornos do neurodesenvolvimento e hipermobilidade é notavelmente alta. Cerca de 50% das crianças autistas apresentam hipermobilidade, e em mulheres adultas, esse percentual pode chegar a 60-70%. Inversamente, a relação de autismo em pessoas com SED é seis a sete vezes maior do que na população geral.
Sinais de Alerta para Pais e Profissionais
Para pais e profissionais, é crucial observar sinais que podem indicar hipermobilidade em crianças e adultos neurodivergentes. Estes incluem:
* Postura em W: Crianças que sentam com as pernas dobradas para trás, formando um “W”.
* Dificuldade postural: Escorregar na cadeira, não conseguir manter-se sentado por muito tempo.
* Dores inexplicáveis: Queixas de “dor de crescimento” ou dores sem causa aparente.
* Fadiga crônica: Cansaço que não melhora com o descanso, exigindo mais tempo para recuperação física.
* Problemas gastrointestinais: Disbioses, dores abdominais, constipação, diarreia, síndrome do intestino irritável.
* Alergias inexplicáveis: Reações alérgicas sem marcadores claros.
* Irritabilidade persistente: Que não responde ao tratamento usual para autismo, podendo ser um sinal de dor ou desconforto.
* Dificuldade alimentar: Recusa de alimentos, preferência por pastosos devido a baixo tônus muscular que dificulta a mastigação.
* Alterações na bexiga: Incontinência urinária, disúria, bexiga dolorosa.
Além do Diagnóstico de Autismo: A Ponta do Iceberg
Carla de Castro utiliza a metáfora do iceberg para ilustrar que o autismo é apenas a ponta visível. Abaixo da superfície, existem inúmeras comorbidades e condições que, se não investigadas, podem ser erroneamente atribuídas ao autismo. “Nem tudo é autismo”, reitera Carla, destacando que ignorar essas questões impede um tratamento eficaz e completo. A avaliação da hipermobilidade, por exemplo, pode ser feita de forma simples e rápida através dos critérios de Beighton, que analisam a flexibilidade de algumas articulações.
O Manejo Multidisciplinar e o Papel Crucial da Nutrição
O tratamento da hipermobilidade e suas comorbidades exige uma abordagem integrada e multidisciplinar. Não há um único profissional ou exame que resolva tudo; é um trabalho de equipe que visa apagar os “incêndios” e promover a prevenção a longo prazo.
Tratamento: Apagando Incêndios e Prevenindo
O diagnóstico da SEDh é essencialmente clínico, excluindo outras causas. Uma vez identificada a hipermobilidade, o tratamento foca em aliviar os sintomas mais urgentes. Para a dor, por exemplo, são indicadas fisioterapia e terapia ocupacional adaptadas, considerando o tônus muscular mais baixo e a necessidade de um tempo maior para ganho de força e resistência.
Uma comorbidade frequente é a Síndrome de Ativação Mastocitária (Sann), presente em até 88% dos pacientes com hipermobilidade. A Sann, que causa uma liberação excessiva de histamina, pode ser a “vilã” por trás de muitas dores e sintomas. Seu manejo, muitas vezes focado na modulação intestinal, é crucial para a melhora do paciente.
Nutrição: Pilar Fundamental no Cuidado
A nutricionista Carla de Castro e a Dra. Kaliny Trevezani concordam que a nutrição é um pilar indispensável no tratamento. Problemas gastrointestinais, disbioses e hiperpermeabilidade intestinal são comuns em pacientes com hipermobilidade e autismo. A modulação intestinal, a suplementação adequada e uma dieta personalizada são essenciais para restaurar a saúde e reduzir a inflamação.
A suplementação, como vitaminas e minerais, é vital, especialmente considerando a seletividade alimentar e a absorção comprometida. Carla enfatiza que a suplementação é um acompanhamento contínuo, “enquanto você comer”, visando manter os níveis ideais e prevenir desequilíbrios. A visão da nutrição funcional, que busca otimizar os níveis de nutrientes (como B12 e Vitamina D) para além das referências laboratoriais convencionais, é fundamental para a saúde plena desses pacientes.
Principais Conclusões
- A hipermobilidade e a Síndrome de Ehlers-Danlos são condições frequentemente subdiagnosticadas em indivíduos neurodivergentes.
- Existe uma forte correlação estatística entre autismo, outros transtornos do neurodesenvolvimento e a hipermobilidade.
- Sinais como dor crônica, fadiga, problemas gastrointestinais e irritabilidade em autistas podem indicar hipermobilidade e exigem investigação.
- O diagnóstico é clínico e a avaliação deve ser parte rotineira do acompanhamento de pacientes neurodivergentes.
- Um manejo multidisciplinar, com foco em fisioterapia, terapia ocupacional e, crucialmente, nutrição, é essencial para o tratamento.
- A nutrição funcional desempenha um papel vital na modulação intestinal, controle da inflamação e suplementação, impactando diretamente a qualidade de vida.
Conclusão
A discussão sobre a conexão entre autismo, hipermobilidade e dor crônica abre novas perspectivas para o cuidado de indivíduos neurodivergentes. É um chamado à ação para profissionais da saúde e famílias, incentivando a investigação aprofundada e a adoção de uma abordagem multidisciplinar. Ao reconhecer e tratar essas comorbidades, podemos oferecer uma qualidade de vida significativamente melhor, transformando o que antes era “do autismo” em condições tratáveis. A união da medicina com a nutrição, como destacam Carla de Castro e Dra. Kaliny Trevezani, é o caminho para um cuidado mais completo e humano.
Para saber mais sobre o trabalho da Dra. Kaliny Trevezani, acompanhe-a no Instagram: @drakalinytrevezani
Este artigo é baseado no vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=10qDPuRJIE4



