Autismo Feminino 50+: A Revelação do Diagnóstico Tardio
Bem-vindos a mais um episódio do podcast Dose de Atipicidade, apresentado pela nutricionista Carla de Castro. Este espaço foi criado com a missão de disseminar informações de qualidade sobre autismo e neurodiversidade, um tema de crescente relevância no Brasil e no mundo. Com milhões de brasileiros se declarando autistas e uma prevalência alarmante (1 para cada 38 crianças no Brasil, e 1 para cada 31 nos EUA), a necessidade de conscientização e suporte é mais urgente do que nunca.
O mês de abril é dedicado à conscientização do autismo, e o Dose de Atipicidade celebra esta causa com um especial focado em vozes autistas. Neste episódio, Carla de Castro recebe uma convidada especial: Érica Ricco, uma mulher que recebeu seu diagnóstico tardio de autismo após os 50 anos. Sua história oferece uma perspectiva valiosa sobre os desafios e as descobertas de viver com autismo sem o conhecimento prévio.
Érica, terapeuta complementar e empresária, compartilha sua jornada de vida, as dificuldades enfrentadas e a importância de um olhar mais atento para o autismo feminino, muitas vezes mascarado e ignorado por décadas.
A Crescente Conscientização do Autismo no Brasil
O cenário do autismo no Brasil e no mundo tem passado por uma transformação significativa. Os dados mais recentes, como o censo de 2025, revelam que 2.4 milhões de brasileiros se identificam como autistas. Essa estatística, que reflete uma prevalência de 1 para 38 no Brasil, e ainda maior em países como os Estados Unidos (1 para 31), sublinha a urgência de discussões aprofundadas e acessíveis.
O aumento no número de diagnósticos não significa necessariamente um crescimento real da condição, mas sim uma melhoria nos critérios de diagnóstico e um maior interesse e atuação de profissionais na área. Isso permite que mais pessoas, que antes viviam sem entender suas particularidades, possam finalmente encontrar respostas e apoio. O podcast Dose de Atipicidade se posiciona como um farol de informação, trazendo especialistas e experiências reais para a audiência.
A Jornada de Érica Ricco: Um Diagnóstico Tardio Após os 50 Anos
Érica Ricco, a convidada deste episódio, é um exemplo inspirador de resiliência e autodescoberta. Terapeuta integrativa complementar, com vasta experiência em produção sociocultural, Érica encontrou nas terapias holísticas um caminho para o equilíbrio pessoal, inicialmente como paciente. Sua busca por autoconhecimento a levou a se aprofundar em cromoterapia, florais e reiki, percebendo a importância de uma abordagem multidisciplinar para a saúde.
Após os 50 anos, Érica recebeu o diagnóstico de autismo, uma revelação que ressignificou muitas de suas experiências de vida. Ela é a mente por trás do projeto “A Essência do Ser”, uma iniciativa ambiciosa que visa reunir uma equipe multidisciplinar de profissionais para oferecer suporte integral a pessoas neurodivergentes e suas famílias. O objetivo é evitar que outros passem por tantos diagnósticos errados e dificuldades como ela própria enfrentou.
“A Essência do Ser”: Um Projeto de Acolhimento Integral
O projeto de Érica, “A Essência do Ser”, busca criar um ambiente de acolhimento e tratamento que vá além do indivíduo, incluindo toda a família. A ideia é oferecer não apenas terapias, mas também oficinas e capacitação, com salas de descompressão para autistas. A colaboração com profissionais como a neuropsicóloga Adriana Reis, amiga e colega de Carla de Castro, é fundamental para a construção dessa rede de apoio.
A visão de Érica e Carla ressalta a importância de uma equipe multidisciplinar que “enreda”, ou seja, que compartilha informações e coloca o paciente no centro do cuidado. Nutricionistas, neuropsicólogos, neuropediatras e psiquiatras trabalham em conjunto para garantir um tratamento eficaz e humanizado, reconhecendo que o paciente é parte de um ecossistema familiar e social complexo.
O Sofrimento Silencioso na Infância e Adolescência
A história de Érica Ricco lança luz sobre o sofrimento silencioso de muitas meninas autistas. Na infância, ela era vista como “quietinha e educadinha”, um comportamento que, para muitos, era sinal de boa criação, mas que na verdade escondia uma intensa inadequação e um caos interno. A dificuldade em interagir socialmente, um dos critérios de diagnóstico do autismo, era interpretada como timidez.
Érica relata experiências marcantes, como alergias a tecidos do uniforme e sensibilidade estomacal, que a levavam a se isolar. O burburinho da sala de aula era um ruído insuportável, fazendo-a matar aulas para se refugiar na biblioteca ou em casa. Essa hipersensibilidade sensorial e a necessidade de evitar sobrecarga são características comuns no autismo, mas muitas vezes não são compreendidas.
O Mascaramento Social no Autismo Feminino
A sociedade frequentemente espera que meninas sejam mais calmas e comportadas, o que pode levar ao mascaramento social (camuflagem) em meninas autistas. Elas aprendem a imitar comportamentos neurotípicos para se encaixar, escondendo suas dificuldades e seu sofrimento. Isso atrasa o diagnóstico e impede o acesso a intervenções adequadas, resultando em anos de incompreensão e exaustão.
A fala de Érica sobre a vergonha de expressar suas dúvidas e sensações, por achar que seria vista como “estranha” ou “inadequada”, ressoa com a experiência de muitos. Essa autocensura, exacerbada na infância e adolescência, contribui para o autismo ignorado em mulheres, que só recebem um diagnóstico na vida adulta, após décadas de luta interna.
Principais Conclusões
- O número de pessoas autistas no Brasil e no mundo está em ascensão, impulsionado por diagnósticos mais precisos e maior conscientização.
- O diagnóstico tardio de autismo em mulheres, especialmente após os 50 anos, é uma realidade comum e traz à tona anos de sofrimento silencioso.
- A infância de meninas autistas é frequentemente marcada por isolamento social, sensibilidades sensoriais e o mascaramento de suas dificuldades.
- O projeto “A Essência do Ser” de Érica Ricco exemplifica a busca por um acolhimento integral e multidisciplinar para indivíduos neurodivergentes e suas famílias.
- A colaboração entre diferentes profissionais de saúde é crucial para um tratamento eficaz e para colocar o paciente no centro do cuidado.
- A compreensão das particularidades do autismo feminino é essencial para evitar que mais histórias de “autismo ignorado” se repitam.
Conclusão
A história de Érica Ricco é um poderoso lembrete da importância de ouvir e validar as experiências de pessoas autistas, especialmente aquelas que viveram grande parte de suas vidas sem um diagnóstico. O autismo feminino e o diagnóstico tardio são temas que merecem atenção contínua, para que o sofrimento silencioso possa ser reconhecido e transformado em caminhos de autoconhecimento e bem-estar.
A iniciativa do Dose de Atipicidade e projetos como “A Essência do Ser” são fundamentais para construir uma sociedade mais inclusiva e informada. Se você se identificou com esta história ou conhece alguém que possa se beneficiar, compartilhe este conteúdo e acesse dosedeatipicidade.com.br para mais informações e episódios. A conscientização é o primeiro passo para o acolhimento e a transformação.
Este artigo é baseado no vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=-_1bO7Hc5Tg



