No podcast “Dose de Atipicidade”, Carla de Castro, nutricionista especialista em autismo e TDAH, recebe Adrianna Reis de Sá, mestre em Bioética e especialista em Neuropsicologia e Saúde Mental, para uma conversa profunda sobre um tema crucial: os desafios do diagnóstico de autismo em mulheres. A discussão aborda a camuflagem social, as questões de gênero e as dificuldades enfrentadas pelas mulheres neurodivergentes em obter um diagnóstico preciso e oportuno.
O autismo, historicamente, tem sido mais diagnosticado em homens, levando a uma compreensão limitada das manifestações atípicas em mulheres. Adrianna Reis de Sá compartilha sua expertise, desmistificando conceitos e oferecendo insights valiosos sobre como a camuflagem social e os estereótipos de gênero podem obscurecer o diagnóstico em mulheres autistas. Este artigo explora os principais pontos dessa conversa, destacando a importância de uma abordagem mais informada e sensível na avaliação neuropsicológica.
A Evolução do Entendimento sobre Autismo
A definição e o entendimento do autismo têm evoluído significativamente ao longo das décadas. Carla de Castro e Adrianna Reis de Sá destacam que os conceitos atuais, baseados nas mudanças do DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), são relativamente recentes. Antes dos anos 2000, o autismo era frequentemente associado à psicose, dificultando o reconhecimento das nuances e particularidades do espectro autista.
O aumento nos diagnósticos de autismo em crianças a partir dos anos 2000 impulsionou a identificação de pais que se reconheciam nos comportamentos de seus filhos. Curiosamente, as mães começaram a se identificar ainda mais, desafiando a proporção tradicional de quatro meninos para cada menina diagnosticada. Hoje, essa proporção se aproxima de três para um, e alguns estudos apontam até para um cenário de um para um. Essa mudança reflete uma compreensão mais aprofundada de como o autismo se manifesta de maneira diferente em mulheres.
Camuflagem Social e a Invisibilidade Feminina
A camuflagem social, ou mascaramento, é um dos principais fatores que contribuem para o subdiagnóstico de autismo em mulheres. Adrianna Reis de Sá explica que, como a avaliação do autismo é baseada em comportamentos expressos socialmente, e os testes foram historicamente desenvolvidos com foco em meninos, as meninas muitas vezes não se encaixam nos critérios diagnósticos tradicionais. Elas aprendem a imitar comportamentos considerados “normais” para se integrarem socialmente, tornando suas características autísticas menos evidentes.
Essa habilidade de mimetizar comportamentos, impulsionada por fatores genéticos e pela pressão social para socializar, permite que muitas meninas passem despercebidas durante a infância. No entanto, essa camuflagem tem um custo alto, levando a comorbidades como ansiedade, depressão e outros transtornos de saúde mental. A constante tentativa de se ajustar e se adaptar ao ambiente gera um nível elevado de estresse e exaustão, impactando negativamente a qualidade de vida dessas mulheres.
O Impacto na Vida Adulta e a Busca pelo Diagnóstico
Na vida adulta, as mulheres autistas frequentemente chegam ao diagnóstico com um histórico de múltiplos diagnósticos errôneos e rótulos. A falta de reconhecimento precoce leva a uma série de traumas e dificuldades, incluindo uma alta incidência de violência. Adrianna Reis de Sá aponta que cerca de 90% das mulheres autistas já sofreram algum tipo de violência, um dado alarmante que ressalta a vulnerabilidade dessas mulheres.
A dificuldade em perceber as sutilezas sociais e em identificar relacionamentos abusivos contribui para essa vulnerabilidade. A literalidade, uma característica marcante do TEA (Transtorno do Espectro Autista), dificulta a compreensão de metáforas, ironias e segundas intenções, tornando-as mais suscetíveis a manipulações. Além disso, a alexitimia, a dificuldade em identificar e expressar emoções, agrava ainda mais a situação, impedindo que essas mulheres busquem ajuda ou denunciem abusos.
Principais Conclusões
- O autismo em mulheres é frequentemente subdiagnosticado devido à camuflagem social e aos critérios diagnósticos enviesados.
- A camuflagem social, embora permita a integração social, tem um alto custo para a saúde mental, levando a ansiedade, depressão e outros transtornos.
- Mulheres autistas são mais vulneráveis à violência e a relacionamentos abusivos devido à dificuldade em perceber as sutilezas sociais.
- A avaliação neuropsicológica é uma ferramenta importante para o diagnóstico, mas deve ser complementada por uma avaliação clínica abrangente que considere a história de vida e a subjetividade da pessoa.
- O diagnóstico tardio pode trazer alívio e compreensão, permitindo que as mulheres autistas busquem apoios e adaptações específicas para melhorar sua qualidade de vida.
- A falta de pertencimento é um dos maiores desafios enfrentados por pessoas neurodivergentes, impactando negativamente sua saúde mental e bem-estar.
Conclusão
A conversa entre Carla de Castro e Adrianna Reis de Sá no podcast “Dose de Atipicidade” oferece uma visão valiosa sobre os desafios do diagnóstico de autismo em mulheres. A conscientização sobre a camuflagem social, a importância de uma avaliação neuropsicológica abrangente e a necessidade de apoios específicos são passos essenciais para garantir que as mulheres autistas recebam o reconhecimento e o suporte que merecem. Que este artigo sirva como um chamado à ação para profissionais de saúde, familiares e a sociedade em geral, para que possamos construir um mundo mais inclusivo e acolhedor para todas as pessoas neurodivergentes.
Este artigo é baseado no vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=7dxi4hcTrRo



