Terapia Ocupacional e Autismo: Desvendando o Impacto Sensorial

O universo do autismo e da neurodiversidade é vasto e complexo, exigindo um olhar atento e especializado para garantir o desenvolvimento pleno de cada indivíduo. No episódio número 82 do podcast “Doses de Atipicidade”, a nutricionista e apresentadora Carla de Castro mergulhou fundo nesse tema, recebendo a renomada terapeuta ocupacional Luana Pessoa para um bate-papo esclarecedor sobre o impacto das questões sensoriais no autismo.

Com mais de um ano e meio de conteúdo de qualidade, o “Doses de Atipicidade” se consolidou como uma fonte essencial de informação, trazendo profissionais de saúde, familiares e neurodivergentes para compartilhar experiências e conhecimentos. A relevância do tema é inegável: dados recentes apontam que 2.4 milhões de pessoas no Brasil se declaram autistas, uma prevalência de 1 para 38 crianças, sem contar os casos de subnotificação.

Neste encontro, Carla e Luana desmistificaram a atuação da Terapia Ocupacional (TO) e abordaram tópicos cruciais como o transtorno de processamento sensorial, o desfralde e a seletividade alimentar, oferecendo insights valiosos para famílias e profissionais.

A Terapia Ocupacional: Uma Profissão Essencial, Mas Pouco Compreendida

Muitas vezes, a Terapia Ocupacional é uma área da saúde que gera dúvidas sobre sua real função. Carla de Castro, acostumada a explicar o papel da nutrição no autismo, ressaltou a similaridade com a TO, que também enfrenta o desafio de ser plenamente compreendida pela sociedade.

Luana Pessoa, terapeuta ocupacional formada pela UNB e especialista em desenvolvimento infantil e reorganização sensorial, explicou de forma didática: a TO tem como objetivo favorecer o desempenho ocupacional. Ocupações são todas as atividades que realizamos diariamente, desde escovar os dentes e se alimentar até dormir, brincar, trabalhar e participar socialmente.

O Que Faz um Terapeuta Ocupacional?

Quando uma criança apresenta dificuldades em realizar suas atividades de vida diária (AVDs), como vestir-se, ir ao banheiro, ou até mesmo brincar de forma adequada, o terapeuta ocupacional é o profissional capacitado para avaliar e intervir. Ele analisa a atividade, o contexto e as barreiras, criando estratégias para que a criança desenvolva as habilidades necessárias e tenha uma melhor qualidade de vida.

É importante destacar que a Terapia Ocupacional é uma profissão de primeiro atendimento, ou seja, não exige encaminhamento médico para uma avaliação. Basta identificar alguma dificuldade no desempenho das ocupações para buscar o auxílio de um TO.

Identificando a Necessidade: Quando Procurar um TO Especialista?

Para pais de crianças autistas ou neurodivergentes, saber quando buscar um terapeuta ocupacional pode ser um divisor de águas. Luana Pessoa listou alguns sinais de alerta que indicam a necessidade de uma avaliação:

  • Criança muito agitada, com dificuldade de permanecer sentada ou de aprendizado escolar.
  • Atrasos acadêmicos ou dificuldades em atividades diárias como escovar os dentes, cortar unhas ou lavar o cabelo.
  • Reatividade a certos tecidos de roupa.
  • Dificuldade na participação social ou problemas de sono desde os primeiros meses de vida.
  • Criança excessivamente chorosa ou, ao contrário, muito retraída e pouco exploratória.

Esses sinais podem indicar questões sensoriais, motoras ou de desenvolvimento que um TO pode ajudar a identificar e tratar. A avaliação é sempre benéfica, pois permite entender se o desenvolvimento da criança está alinhado com os marcos esperados para sua faixa etária, conforme a cartilha da criança.

A Urgência da Intervenção Precoce e a Neuroplasticidade

Um ponto crucial abordado foi o timing da intervenção. Luana enfatizou que a primeira infância (até os seis anos) é o período ideal para intervenções, devido à alta neuroplasticidade cerebral. Nesse estágio, o cérebro possui uma quantidade muito maior de conexões nervosas, tornando-o mais receptivo a novas aprendizagens e reorganizações.

Embora crianças mais velhas também se beneficiem da Terapia Ocupacional, a janela da primeira infância oferece resultados mais significativos. A poda neural, processo natural de eliminação de sinapses menos utilizadas, ocorre em diferentes fases da vida, reforçando a importância de estimular as conexões certas desde cedo.

Desafios Cotidianos: Desfralde e Seletividade Alimentar sob a Ótica da TO

O desfralde e a alimentação são duas áreas onde a Terapia Ocupacional desempenha um papel fundamental, especialmente em crianças neurodivergentes.

O Desfralde Consciente: Além do “Tempo da Criança”

O desfralde, que para muitos parece um processo natural, pode ser um grande desafio. Luana explicou que a TO avalia os marcos de prontidão da criança, que vão além da idade cronológica. Sinais como pular com os dois pés, ter independência para vestir e despir, controle postural, diferenciar xixi de cocô e sentir a fralda suja são indicadores importantes.

Iniciar o desfralde antes da prontidão pode gerar frustração e até traumas. A abordagem da TO envolve a associação funcional com o uso do banheiro através do brincar, tornando o ambiente familiar e positivo. É crucial que a criança entenda que o uso do banheiro é uma necessidade fisiológica, e não uma demanda ou obrigação imposta. Treinos inadequados, como levar a criança ao banheiro a cada 30 minutos, podem causar prejuízos como incontinência urinária e aversão ao ambiente.

Seletividade Alimentar: Compreendendo as Raízes e Estratégias

A seletividade alimentar é outro campo onde a TO atua, muitas vezes em conjunto com a nutrição. Luana destacou que a alimentação, assim como o desfralde, não deve ser uma “demanda”. Forçar a criança a comer pode criar experiências negativas e traumas, como o exemplo pessoal de Carla com a galinha caipira.

Questões sensoriais, como aversão a texturas ou temperaturas, e o desenvolvimento do medo e nojo (que se intensificam por volta dos dois anos), podem influenciar a seletividade. A terapeuta ocupacional trabalha para que a criança experimente o alimento de diversas formas, permitindo que ela se suje, sinta e explore, ressignificando a experiência alimentar. A persistência em ofertar alimentos, mesmo que não sejam aceitos de imediato, é fundamental, pois “o que não é visto, não é lembrado”.

O Ambiente Terapêutico e o Papel Fundamental da Família

Contrariando a ideia de que a Terapia Ocupacional é apenas “brincar”, Luana enfatizou que o ambiente terapêutico é cuidadosamente planejado e baseado em ciência. Uma sala de integração sensorial, por exemplo, segue uma metodologia rigorosa, como a de Ayres, para oferecer segurança e oportunidades de exploração sensorial.

A Ciência por Trás do Brincar Terapêutico

Cada equipamento e proposta de atividade tem um raciocínio clínico por trás, visando o desempenho ocupacional. O objetivo é criar um “desafio na medida certa”, onde a criança não se sinta entediada nem frustrada, mas sim motivada a explorar e aprender. A diversão é a chave, pois uma criança desregulada ou frustrada não absorverá o conhecimento.

Família: Co-terapeutas no Processo

A participação da família é indispensável. Luana ressaltou que os pais são os “principais co-terapeutas”, pois são eles que darão continuidade ao trabalho em casa. Profissionais que impedem a participação dos pais nas sessões devem gerar desconfiança, pois a transparência e o envolvimento familiar são cruciais para o sucesso da intervenção.

Principais Conclusões

  • A Terapia Ocupacional (TO) é essencial para o desenvolvimento de habilidades diárias em crianças neurodivergentes, abordando desde o autocuidado até o brincar e a participação social.
  • Sinais como agitação, dificuldades de aprendizado, problemas de sono ou aversão a texturas podem indicar a necessidade de uma avaliação de TO.
  • A intervenção precoce, especialmente na primeira infância (até os 6 anos), é crucial devido à alta neuroplasticidade cerebral.
  • O desfralde e a alimentação devem ser abordados como necessidades fisiológicas, não como “demandas”, respeitando os marcos de prontidão e evitando traumas.
  • O ambiente terapêutico da TO é científico e estruturado, visando o desenvolvimento de habilidades através de um “brincar com propósito”.
  • O envolvimento ativo da família é fundamental para o sucesso do processo terapêutico, atuando como “co-terapeutas” no dia a dia da criança.

Conclusão

O bate-papo entre Carla de Castro e Luana Pessoa no “Doses de Atipicidade” reforçou a importância de um olhar multidisciplinar e especializado para o autismo e a neurodiversidade. A Terapia Ocupacional, com sua abordagem centrada no desempenho ocupacional e na integração sensorial, oferece ferramentas poderosas para que crianças e suas famílias alcancem uma melhor qualidade de vida.

Se você identificou algum dos sinais mencionados ou busca aprofundar seus conhecimentos, não hesite em procurar profissionais qualificados. Para mais informações, siga Luana Pessoa no Instagram (@UniversalizandoTO) e Carla de Castro (@nutripontoCarla e @dosedeatipicidade). Acesse também o site dosedeatipicidade.com.br para conferir todos os episódios e conteúdos exclusivos.

Este artigo é baseado no vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=XkdoDX-_HP8

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Olá, meu nome é
Carla de Castro

Sou nutricionista especializada em Saúde Mental e Transtornos do Neurodesenvolvimento, e dedico minha trajetória a transformar o cuidado com famílias atípicas. Sou pioneira no Brasil na abordagem nutricional voltada ao autismo e criei o podcast Doses de Atipicidade para ampliar esse diálogo com empatia e ciência. À frente da Clínica Sallva, acolho cada história com escuta ativa e desenvolvo estratégias nutricionais personalizadas que promovem equilíbrio, autonomia e qualidade de vida.