TDAH, Altas Habilidades e Autoconhecimento: O Diagnóstico de Carla de Castro

O podcast Dose Atípica celebrou um marco significativo: seu 100º episódio e dois anos de conteúdo dedicado ao autismo, neurodesenvolvimento, altas habilidades e TDAH. Para uma ocasião tão especial, a nutricionista, criadora e apresentadora Carla de Castro escolheu um tema profundamente pessoal: a revelação de seu próprio diagnóstico de TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) e Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD).

Este episódio comemorativo não foi apenas uma celebração da longevidade do projeto, mas também um mergulho corajoso na jornada de autoconhecimento de Carla. Ao seu lado, a neuropsicóloga Adriana Reis, profissional que conduziu sua avaliação, trouxe clareza e expertise para desmistificar a neurodivergência e a complexa interação entre TDAH e AH/SD. A conversa revelou como a vida profissional de Carla a conduziu, de forma quase predestinada, ao universo neurodivergente, mesmo antes de compreender sua própria neurodiversidade.

A Jornada Inesperada para a Neurodivergência

Carla de Castro, nutricionista há 21 anos, passou por uma significativa transição de carreira. Após 12 anos afastada da nutrição, atuando no serviço público, a frustração a impulsionou a retornar à sua área de formação em 2017. Inicialmente focada em emagrecimento, percebeu um baixo engajamento que a levou a buscar um nicho onde a nutrição pudesse atuar de forma mais impactante.

Foi assim que ela se voltou para a saúde mental e, por indicação de uma amiga fonoaudióloga, começou a estudar Síndrome de Down. Inesperadamente, o autismo inundou seu consultório, seguido pelo TDAH. Essa trajetória, que parecia um acaso, revelou-se um “ultranichamento” pioneiro no Brasil, estabelecendo Carla como uma referência na área, muito antes de seu próprio diagnóstico.

A Inquietude que Guiou a Carreira

A motivação de Carla é intrínseca, um “motor interno” que a impulsiona constantemente. Ela se descreve como alguém que precisa começar e terminar tarefas, movida por uma inquietude e um desejo de realização pessoal. Essa energia a levou a criar o Dose Atípica e a abrir sua clínica, desafiando críticas e prosperando.

Adriana Reis, ao analisar a avaliação de Carla, destacou sua altíssima inteligência emocional, com uma empatia predominantemente cognitiva. Essa capacidade de compreender a dor do outro de forma racional e técnica, aliada a uma resiliência notável, permitiu a Carla enfrentar desafios e se adaptar, características que moldaram sua trajetória profissional e pessoal.

Os Desafios da Camuflagem Social

Desde a infância, Carla foi a “filha modelo”, a “espevitada” que não dava trabalho, sempre buscando agradar e se encaixar nos padrões esperados. Essa camuflagem social, comum em meninas e mulheres, a levou a controlar impulsos e a se adaptar, evitando conflitos e buscando a perfeição. Embora não perceba sofrimento direto dessa fase, ela reconhece ter se enquadrado em expectativas.

A camuflagem, embora uma estratégia de inteligência emocional para navegar em ambientes sociais, pode gerar ansiedade. Carla, no entanto, não se percebe ansiosa hoje, atribuindo isso a um processo de preparo e ao perfeccionismo que a acompanha. Ela se antecipa aos processos para evitar o sofrimento na véspera, uma forma de gerenciar a si mesma.

Desvendando o Diagnóstico: TDAH e Altas Habilidades

A avaliação neuropsicológica de Carla, conduzida por Adriana Reis, foi um processo detalhado, que inclusive virou um “reality” nas redes sociais. Um detalhe curioso, e revelador de seu TDAH, foi o atraso de quase um ano para entregar a anamnese familiar.

Adriana explicou que, embora Carla demonstre excelente atenção dividida (multitarefas), seus testes de atenção concentrada e alternada não foram tão bons. A dificuldade em desligar-se de estímulos externos para focar em uma única tarefa é um traço marcante. No entanto, a presença de Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD), evidenciada por pontuações muito altas em testes de habilidades mentais e memória de trabalho, permite a Carla entrar em um estado de “flow” criativo e imaginativo, que pode ser confundido com hiperfoco.

A Dupla Excepcionalidade: TDAH e AH/SD

A dupla excepcionalidade (2e) de Carla é um ponto crucial. A superdotação, por si só, é preditiva de melhores desfechos em saúde mental e atua como um “mascarador” dos sintomas de TDAH. “Se a gente não presta atenção nesses detalhes, provavelmente o diagnóstico ia passar”, afirma Adriana. A capacidade criativa, imaginativa e acadêmica de Carla, aliada a uma hiperexcitabilidade sensorial (sensibilidade a barulhos, cheiros), a fez desenvolver habilidades para lidar com os desafios.

A avaliação também revelou uma forte presença de padrões e certa rigidez cognitiva, especialmente em questões morais e éticas. Embora isso pudesse levantar a hipótese de autismo, a adaptabilidade de Carla, que consegue flexibilizar esses padrões em situações como viagens, descartou essa possibilidade. A rigidez, nesse contexto, serve como uma estratégia de organização para garantir o funcionamento.

O Ecossistema de Suporte de Carla: Além da Medicação

Um aspecto notável da jornada de Carla é sua escolha de não utilizar medicação para o TDAH. Ela atribui isso a um estilo de vida saudável cultivado há muito tempo: alimentação balanceada, suplementação adequada, sono de qualidade e, fundamentalmente, atividade física. O treino é para ela uma forma de autorregulação, modulando o humor e mantendo seu positivismo.

Adriana Reis reforça que mudanças no ambiente e nas rotinas são, muitas vezes, mais importantes que a medicação. Carla construiu um verdadeiro ecossistema de suporte, que inclui sua secretária, sua coach, e o apoio familiar, além de instrumentos tecnológicos e rotinas bem estabelecidas. “Se ela não tivesse esses ambientes, ela seria um, e a superdotação, né? Que às vezes mesmo com superdotação e TDAH a pessoa não consegue ter uma boa qualidade de vida, ela consegue ter ótimos desfechos na vida dela”, explica Adriana.

A Gestão Interna dos Desafios

Carla desenvolveu um método próprio para lidar com preocupações e estresse: ela pausa tudo e analisa sua vida em três pilares: família, trabalho e saúde. Ao identificar a origem da preocupação, ela age para resolvê-la, evitando que se transforme em ansiedade generalizada. Essa capacidade de regulação emocional e de lidar com as disfunções executivas do TDAH através de técnicas e estratégias é um exemplo de como o autoconhecimento e o suporte podem gerar funcionalidade.

Autoconhecimento e Aceitação: O Poder do Diagnóstico

Receber o diagnóstico de TDAH leve com hiperatividade e Altas Habilidades/Superdotação foi um divisor de águas para Carla. Ela percebeu que, após o laudo, sua neurodivergência “explodiu”, tornando-se mais latente e compreensível. O diagnóstico trouxe respostas, permitindo-lhe entender seus limites, suas reações e seu posicionamento no mundo.

Adriana Reis pontua que o diagnóstico não é apenas sobre a busca de direitos, mas principalmente sobre a autopercepção. “Saber que eu sou autista me torna muito mais autista. Saber que eu sou TDAH me torna muito mais TDAH”, comenta. Essa clareza permite que a pessoa faça melhores ajustes, pare de camuflar comportamentos que não compensam o esforço e desenvolva estratégias mais eficazes para lidar com suas particularidades.

A Superdotação como um Presente

A princípio, Carla relutou em aceitar o termo “superdotada”, mas hoje compreende o papel fundamental que as Altas Habilidades desempenharam em sua vida. “Eu não teria feito metade do que eu fiz. Sem sombra de dúvida. Se eu fosse uma TDAH pura, eu não tinha feito, com toda certeza”, afirma. Adriana Reis enfatiza que a superdotação não é um problema ou adoecimento, mas um “plus”, um “presente”, um cérebro privilegiado que, na dupla excepcionalidade, atua como uma gangorra, ora favorecendo, ora complicando.

Principais Conclusões

  • Jornada de Descoberta: Carla de Castro se dedicou à neurodivergência profissionalmente antes de descobrir sua própria condição, impulsionada por uma motivação intrínseca.
  • Dupla Excepcionalidade (2e): Seu diagnóstico de TDAH leve com hiperatividade e Altas Habilidades/Superdotação demonstra como a superdotação pode mascarar os sintomas do TDAH.
  • Inteligência Emocional e Empatia Cognitiva: A alta inteligência emocional e a empatia cognitiva de Carla são pilares em sua capacidade de lidar com desafios e se autorregular.
  • Ecossistema de Suporte: A gestão do TDAH de Carla é sustentada por um estilo de vida saudável, rotinas, atividade física e um ambiente de apoio, sem a necessidade de medicação.
  • Poder do Autoconhecimento: O diagnóstico trouxe clareza e validação, permitindo a Carla entender melhor seu funcionamento, seus limites e aprimorar suas estratégias de vida.
  • Avaliação Neuropsicológica: A importância da avaliação é reforçada como ferramenta essencial para o autoconhecimento e a melhoria da qualidade de vida, mesmo em adultos funcionais.

Conclusão

O 100º episódio do Dose Atípica foi um testemunho emocionante da jornada de autoconhecimento e da importância de desmistificar a neurodivergência. A coragem de Carla de Castro em compartilhar seu diagnóstico não apenas celebra um marco pessoal, mas também oferece um farol de esperança e compreensão para muitos. A conversa com Adriana Reis reforça que o diagnóstico não define, mas explica, e que um ecossistema de suporte, autoconhecimento e aceitação são ferramentas poderosas para navegar a vida neurodivergente.

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Este artigo é baseado no vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=Xxy8ue_1TN8

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Olá, meu nome é
Carla de Castro

Sou nutricionista especializada em Saúde Mental e Transtornos do Neurodesenvolvimento, e dedico minha trajetória a transformar o cuidado com famílias atípicas. Sou pioneira no Brasil na abordagem nutricional voltada ao autismo e criei o podcast Doses de Atipicidade para ampliar esse diálogo com empatia e ciência. À frente da Clínica Sallva, acolho cada história com escuta ativa e desenvolvo estratégias nutricionais personalizadas que promovem equilíbrio, autonomia e qualidade de vida.