Rótulos Infantis: Diagnóstico é Destino? Autismo e TDAH

No universo complexo do desenvolvimento infantil, o diagnóstico de autismo, TDAH ou altas habilidades pode parecer um farol, oferecendo compreensão e direcionamento. No entanto, a busca por respostas rápidas e a banalização de certos comportamentos podem levar a rótulos precoces, com consequências significativas para o futuro das crianças. Afinal, diagnóstico é destino?

Carla de Castro, nutricionista e apresentadora do podcast Dose de Atipicidade, convidou Camila Marchese, psicóloga e neuropsicóloga com vasta experiência em transtornos do neurodesenvolvimento, para uma conversa franca sobre os riscos da rotulagem infantil e a importância de um diagnóstico responsável. Juntas, elas exploram os desafios de identificar o que é atípico, o impacto do estilo de vida moderno e a necessidade de um olhar criterioso por parte dos profissionais.

A Importância da Base: Sono, Alimentação e Rotina

Antes de aventar qualquer diagnóstico, Camila Marchese enfatiza a importância de avaliar a base do desenvolvimento infantil: sono de qualidade, alimentação adequada e uma rotina bem estabelecida. A ausência desses elementos essenciais pode gerar comportamentos sugestivos de transtornos, mascarando a verdadeira causa do problema. Muitas crianças chegam aos consultórios com déficits significativos nessas áreas, dificultando a distinção entre o que é atípico e o que é resultado de hábitos inadequados.

“Antes de patologizar, a gente precisa entender aquilo que é natural”, afirma Camila. Uma criança que não dorme o suficiente, se alimenta mal e não tem uma rotina estruturada dificilmente conseguirá apresentar um bom desempenho escolar ou social. É fundamental investigar esses fatores antes de considerar um diagnóstico de TDAH ou autismo.

O Impacto das Telas e da Pandemia

A pandemia de COVID-19 exacerbou ainda mais os desafios do desenvolvimento infantil. O excesso de telas e a falta de socialização durante o período de isolamento social levaram muitas crianças a desenvolverem comportamentos sugestivos de autismo. No entanto, como ressalta Camila, telas não causam autismo, mas roubam da criança a oportunidade de criar, interagir e desenvolver habilidades sociais.

Os desenhos animados modernos, com sua hipersensibilidade sensorial e falta de conteúdo, também contribuem para a alienação das crianças, adormecendo sua capacidade de imaginar e criar. É crucial que os pais limitem o tempo de tela e ofereçam alternativas que estimulem o desenvolvimento psicomotor e a interação social.

Diagnóstico Responsável: Além dos Testes

Tanto Carla quanto Camila concordam que um diagnóstico responsável vai além da aplicação de testes. É fundamental que o profissional avalie o contexto da criança, seus hábitos, sua rotina e seu histórico familiar. Os testes são apenas um auxílio, uma parte quantitativa de uma avaliação que necessita de uma observação qualitativa imensa.

“O diagnóstico só deve ser aventado se não for melhor justificado por outras causas”, lembra Camila, citando o DSM. Investigar a qualidade do sono, a alimentação, a rotina e o tempo de tela é essencial antes de rotular uma criança com um transtorno.

Altas Habilidades: Troféu ou Fardo?

A superestimação das altas habilidades é outro tema que preocupa as especialistas. Muitas vezes, pais e escolas buscam um diagnóstico de superdotação para alimentar o ego ou justificar a necessidade de adaptações escolares. No entanto, como ressalta Carla, nem todas as crianças precisam de uma sala adaptada ou de um acompanhamento individualizado.

Camila compartilha um exemplo pessoal, relatando a experiência com um de seus filhos, apontado pela escola como tendo indícios de altas habilidades. Ela questiona a necessidade de um diagnóstico precoce, priorizando o desenvolvimento de outras habilidades importantes, como tolerância à frustração e caridade. “De nada adianta uma superhabilidade técnica se ele não sabe pedir desculpas”, afirma.

Principais Conclusões

  • É fundamental avaliar a base do desenvolvimento infantil (sono, alimentação e rotina) antes de aventar qualquer diagnóstico.
  • O excesso de telas e a falta de socialização podem gerar comportamentos sugestivos de transtornos, mas não causam autismo.
  • Um diagnóstico responsável vai além da aplicação de testes, exigindo uma avaliação completa do contexto da criança.
  • A superestimação das altas habilidades pode ser prejudicial, transformando a criança em um “famosinho” ou gerando ansiedade e cobrança excessiva.
  • Nem tudo é autismo, e nem tudo que acontece com uma criança autista é por causa do autismo.
  • Educar dá trabalho, mas não educar também dá.

Conclusão

Diante da complexidade do desenvolvimento infantil, é crucial que pais e profissionais adotem uma postura cautelosa e responsável em relação aos diagnósticos. Rótulos precoces podem limitar o potencial das crianças e impedir que elas desenvolvam todo o seu potencial. Antes de buscar respostas rápidas, é fundamental investir em uma base sólida, com sono de qualidade, alimentação adequada e uma rotina estruturada. Afinal, o futuro de nossas crianças depende de um olhar atento, criterioso e, acima de tudo, humano. Qual o legado que queremos deixar para as próximas gerações?

Este artigo é baseado no vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=iQYqMHrhj1U

Nesta matéria:

Faça download do Ebook

receitas sem glúten e sem lácteos

Participe

Faça parte da comunidade do Doses de Atipicidade e receba em primeira mão, direto em seu whatsapp, todas as novidades do projeto.

Gostou? Participe!

Faça parte da comunidade do Doses de Atipicidade e receba em primeira mão, direto em seu whatsapp, todas as novidades do projeto.

Olá, meu nome é
Carla de Castro

Sou nutricionista especializada em Saúde Mental e Transtornos do Neurodesenvolvimento, e dedico minha trajetória a transformar o cuidado com famílias atípicas. Sou pioneira no Brasil na abordagem nutricional voltada ao autismo e criei o podcast Doses de Atipicidade para ampliar esse diálogo com empatia e ciência. À frente da Clínica Sallva, acolho cada história com escuta ativa e desenvolvo estratégias nutricionais personalizadas que promovem equilíbrio, autonomia e qualidade de vida.